Heleninha (Paolla Oliveira) terá mais uma recaída no álcool nesta semana na novela “Vale Tudo”. Inconformado com o comportamento destrutivo da mãe, o filho, Tiago (Pedro Waddington), vai exagerar na bebida em uma tentativa de fazer a mãe “provar do próprio veneno”. No entanto, o jovem se envolverá em uma briga durante o porre e será roubado e espancado por um grupo de homens. A cena está prevista para ir ao ar a partir desta quarta-feira (13).
A sequência traz à tona uma discussão que divide opiniões na área da saúde. Afinal, o alcoolismo pode ser hereditário? O Purepeople convidou dois especialistas para debater a questão.
O Dr. Edmo Atique Gabriel*, médico cardiologista especializado em Cirurgia Cardiovascular, explica que a ciência já conseguiu determinar uma classe de genes que transmitem a tendência ao alcoolismo, chamada DRD. Segundo ele, a maioria dos estudos aponta que o subtipo DRD2 é o que possivelmente está mais associado a essa predisposição.
O cardiologista cita estudos realizados em famílias com gêmeos idênticos para avaliar a transmissão deste gene aos filhos. “Esses genes são transmitidos, principalmente, nas duas a três primeiras gerações de uma família, e eles são responsáveis por quase 50% da tendência de alcoolismo dessa pessoa.”
No entanto, Edmo pondera que os fatores socioculturais e ambientes também são determinantes. “Agora, como a tendência genética é da ordem de 40 a 60%, a outra parte, cerca de 40 a 50%, se refere ao ambiente. E aí depende mesmo de uma socialização adequada, de um ambiente espiritualmente mais saudável, da escolha de amigos, de ambientes para frequentar.”
A tese da importância do ambiente é defendida por muitos psicanalistas, como o psicólogo clínico José Yuri de Souza Feijão**, mestrando em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
O profissional detalha que a psicanálise aponta para modos de identificação que não são biológicos. Ele reconhece que predisposições biológicas modulam a intensidade e o risco, mas destaca que crianças aprendem padrões de vínculo e linguagem emocional no contato com os pais.
“Traumas não elaborados, segredos familiares e comportamentos implícitos, como não expressar a dor e resolver tudo com bebida, tendem a ser repetidos porque fazem parte do modo como o sujeito aprendeu a lidar com angústia. Há também mecanismos como a repetição: o sujeito volta a situações que reconstituem conflitos primários na tentativa inconsciente de resolver algo que não pôde ser trabalhado no passado”, destrincha.
Um ponto de preocupação entre profissionais de saúde é o consumo cada vez mais precoce de álcool entre os jovens. Um estudo feito pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), divulgado em 2022, mostra que 39% dos estudantes começaram a ingerir bebida entre os 12 e 13 anos, dentro de casa e com a permissão de familiares. É aí que a combinação entre o ambiente sociocultural e a questão genética podem resultar em um combo perigoso.
“Essa necessidade do consumo do álcool acaba se acentuando primeiramente pelo fator ambiental, pelo fator social, pela questão da rede social, mas ela acaba se encontrando com a predisposição genética no adolescente”, reflete o doutor, que ainda pontua que, na maioria dos casos, a pessoa não está ciente desta predisposição.
O psicólogo complementa que, muitas vezes, a compulsão por álcool pode ser compreendida como um sintoma de conflitos psíquicos não elaborados, algo relativamente comum entre os jovens. “Do ponto de vista psicanalítico, a compulsão é muitas vezes um sintoma: uma tentativa de manejar afetos intoleráveis, como culpa, vazio, raiva, que não foram simbolizados ou elaborados. O álcool pode funcionar como ‘solução imediata’ para regular angústia, calar vozes internas, anestesiar luto ou permitir a expressão de pulsões proibidas.”
O doutor Edmo defende que uma pessoa com predisposição ao alcoolismo deve buscar um acompanhamento multidisciplinar, que envolve médico, psicológico e educadores físicos, além de ambientes culturais e sociais e grupos de apoio.
“Ele precisa entender que não está sozinho no mundo e que existem outras muitas pessoas envolvidas na mesma situação. Então, acho que esse papel da socialização, da integração social, seja com equipe multidisciplinar ou mesmo com grupos de apoio que fazem esse trabalho em centros de saúde, em escolas, em igrejas, em paróquias, isso é muito fundamental nessa questão do acompanhamento e do tratamento”, reitera.
Já José Yuri reforça que um tratamento médico que desconsidere o entorno do paciente pode ser ineficaz. “Desconsiderar as dinâmicas relacionais que mantêm o problema pode desmobilizar a agência e responsabilidade subjetiva. Pode também levar a tratamentos que apenas suprimem sinais sem trabalhar as causas psíquicas - a pessoa pode ficar ‘estável’ biomedicamente, mas sem mudança na relação com o desejo, a culpa, a separação. Dito isso, uma visão integrada é a mais útil: reconhecer a dimensão biológica sem excluir a clínica do sujeito.”
* CRM/SP: 105226, CRM/RJ: 1059840, CRM/DF: 22775, CRM/MS: 5936, RQE: 36567
** CRP 05/68921
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